Preciosidades
O acordar começa triunfoso, exasperado, nervoso: todos vão viajar, muitos vão viajar. São famílias, amigos, irmãos, pais, mães, filhas e sobrinhos, conhecidos ou não, mas todos com o mesmo objetivo – com um mesmo destino. Chegam no Aeroporto, era Porto Alegre, linda e fria – não sabiam o futuro, talvez essa seja a dádiva de Deus aos homens: não saberem o que os aguardam, saberem que cada segundo é eterno, pois cada segundo é um segundo em que vencemos.
Entramos todos no avião, somos uma grande família, talvez tivessem muitos, talvez não, já não sei mais se estive lá, já não sei mais quanto tempo posso contá-los.
Tudo sempre esteve certo, o Airbus A-320 estava certo, ou não: O avião tinha um reversor desligado – “mas não tinha problema” pensavam os comandantes, já havia acontecido antes.
Viagem normal, pois eram pessoas normais apenas embarcando para São Paulo, era apenas mais uma viagem dentre tantas ao redor do mundo até algo acontecer.
Queria saber os segunds antes do acontecido, o que havia na cabeça de cada um? Tiveram a cosciência de saberem que iam morrer segundos antes? Ou foram privados mais uma vez de saberem seu futuro? Minha poética não permite que eu vá até lá, talvez seja dor de mais, talvez o talvez cance.
Chegamos em Congonhas, era apenas um vôo, um entre tantos e por quê? Não conseguiram diminuir a velocidade, não conseguimos conter o avião, a pista estava molhada, não houve máquina ou pensar humano que ajudasse, por favor, desculpe-nos.
Eram momentos de ilusão de uma chegada bonita, era uma ilusão de felicidade, ou quem sabe estavam sim felizes, talvez a morte omitida tenha os dado o dom de morrer felizes por uma chegada, quem sabe isso não traduz essa realidade.
Mas o “não saber” não impediu nada de ocorrer, mais uma vez a pista estava molhada, freios a todo e o avião não parava, não ficava lento, não queria dormir. Mas então veio a luz sem que eles soubessem, todos nascem para uma luz que de primeiro desconhecem, desconhecemos a luz que os ilumina, e eles morreram sobe uma luz que nunca vão saber de onde veio, nem nunca vão saber o porquê. Pudera a luz estandarte da vida tenha se rebelado e levado mais de 180 pessoas, essas mesma pessoas nascidas para a luz, e quem Deus acompanhe todos.